Da juvenilidade somos todos sobreviventes. Uns mais, outros menos. Para a jornalista Eliane Brum, que é mãe, mais importante que o primeiro passo, a primeira termo ou o primeiro dente, é o momento em que a sua cria descobre o vazio.

“Saber sustentar e escutar a dor de um rebento, sem tentar silenciar com coisas o que não pode ser silencioso com coisa alguma, é um ato profundo de paixão”, escreveu ela em seu texto “A Dor dos Filhos”.

Essa talvez seja uma das maiores tarefas para os pais e as mães de quem está na puberdade. A temporada do “nem-criança-nem-adulto” marca o início de uma série de transformações avassaladoras. Não por eventualidade serve porquê tecido de fundo para esses indivíduos em formação enfrentarem uma doença que, até pouco tempo detrás, parecia coisa só de gente grande: a depressão.

O problema não só existe porquê já é muito prevalente no universo teen: atinge um em cada cinco jovens entre 12 e 18 anos (tira etária considerada porquê juvenilidade no Brasil). Há uma lista de motivos por trás do quadro tão terrível.

“Questões sobre sexualidade, dificuldade em mourejar com frustrações, bullying, além de pressão pela escolha da curso e por um bom desempenho escolar estão na base de conflitos que podem funcionar porquê agravantes”, alerta a psicóloga Vera Ferrari Rego Barros, presidente do Departamento Científico de Saúde Mental da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP).

De tratado com a psiquiatra Lee Fu-I, coordenadora do Programa de Transtornos Afetivos na Puerícia e Mocidade do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (Ipq-USP), as formas de diagnóstico também se aperfeiçoaram, facilitando a identificação do quadro. Só que, para a mediação ocorrer o mais cedo provável, tem um profissional imprescindível nesse roteiro: o pediatra.

“As consultas de rotina proporcionam um contato maior com os pacientes e seus familiares. Nelas, dá para perceber alterações iniciais, muitas vezes sutis”, explica o pediatra Claudio Barsanti, presidente da SPSP. Para fechar o diagnóstico, os profissionais devem estar alertas e a par das características do distúrbio.

Só que isso nem sempre acontece: dados mostram que dois em cada três médicos não identificam o quadro. Uma vez que consequência, adolescentes acabam passando por essa tempestade sem um tratamento.

Para evitar esse desfecho, a Associação Americana de Pediatria (AAP) resolveu atualizar diretrizes que estavam há dez anos sem revisão. Um dos objetivos é ajudar os profissionais a rastrearem a doença.

“Reconhecer a depressão na juvenilidade é mais difícil porque, nessa temporada, todos mudam seu comportamento naturalmente, o que pode refletir em maior isolamento“, esclarece a psiquiatra da puerícia e juvenilidade Ana Kleinman, do Ipq-USP. “Para essa situação ser considerada normal e saudável, precisa vir intercalada com momentos de convívio”, pontua.

Não é só o pediatra que tem a incumbência de olhar a garotada com essa atenção. “Muitas vezes, o juvenil até quer pedir ajuda, só que não sabe porquê. Ele se sente julgado e minguado pelos pais e colegas”, diz a psicóloga Camila Reis, da capital paulista.

Não à toa, entre as recomendações da AAP está justamente o maior envolvimento da família no mundo do jovem. Para isso, o primeiro passo é desvinculá-lo do termo “aborrescente”.

“Às vezes, o jovem começa a entediar os pais por requerer mudanças no sistema de interação familiar. Isso não significa que eles estejam errados”, nota a psicóloga Karina Okajima Fukumitsu, de São Paulo.

O diagnóstico e o tratamento da depressão juvenil

Mais difícil do que notar a dor dos filhos é reconhecer que esse sentimento é tão limitante que exige, sim, um seguimento especializado. E esse momento é um divisor de águas: ora, se a depressão em adultos é tão devastadora, imagine entre a turma que está só no primórdio da vida.

“O juvenil é mais intenso e impulsivo. Por isso, não tem experiência para tomar decisões claras nem capacidade de enxergar em longo prazo”, avalia Camila.

Daí os riscos associados à doença – principalmente quando ela não é oficialmente diagnosticada – tornam-se mais preocupantes ainda. A requisito, cabe lembrar, afeta o corpo inteiro. “A depressão aumenta o risco cardíaco e traz uma prenúncio real de suicídio“, exemplifica Ana. Sem racontar que o isolamento faz com que a meninada perdida a experiência da interação social – fundamental para a formação da personalidade.

Para muitos pais, o susto do diagnóstico vem escoltado de outro temor: o de que o rebento precise do tal medicamento “tarja preta” em seu tratamento. Mas esse pânico não tem razão de subsistir.

“O remédio dá, muitas vezes, um espaço de respiro ao tipo que luta contra situações além das suas forças. Não quer manifestar que ele precisará usá-lo para o resto da vida”, informa o psicólogo André Luiz, pesquisador do Meio de Atenção ao Sujeito no Luto (Casulu), em São Paulo.

E é evidente que, sozinhos, os comprimidos não deixam o dia a dia sarapintado porquê num passe de mágica. “Se você só toma a medicação e mantém os gatilhos ativos, a depressão não vai melhorar”, afirma Ana. O melhor tratamento é sempre aquele que considera múltiplas abordagens. “Independentemente da severidade, a psicoterapia é fundamental para que crianças e adolescentes aprendam a mourejar com os sentimentos ou acontecimentos dolorosos que originaram a depressão”, explica Vera.

Fora do consultório, o desejável é que todos que convivem com o jovem deprimido consigam estar presentes para auxiliá-lo a encarar essa temporada conturbada. Contornado de cuidados, ele passará a enxergar o amanhã com muito mais otimismo.

Sinais que denunciam a depressão

Isolamento: Quando o jovem prefere permanecer o tempo todo no próprio quarto a trespassar e interagir com os amigos, é bom investigar.

Nervosismo: É normal se irritar. Mas se esse comportamento se mantém por longos períodos, é sinal de que alguma coisa não vai muito.

Dores sem termo: Cabeça, estômago, costas e articulações doloridas ligam o alerta. Cansaço permanente, letargia e exaustão também.

Fã do transe: Ter condutas arriscadas ou viciantes pode ser uma forma de buscar consolação ou de se distrair da dor.

Notas em queda: Desempenho escolar ruim e reclamações da postura nesse envolvente indicam que a doença pode estar se instalando.

O termo da traço

“Se a depressão não for tratada, pode levar ao suicídio”, crava a psicóloga Camila Reis. E as taxas entre crianças e adolescentes têm subido significativamente. De 2000 a 2015, as mortes desse tipo aumentaram 65% dos 10 aos 14 anos e 45% dos 15 aos 19 anos – mais do que a subida de 40% na média da população em universal.

“Os jovens não sabem mourejar com as frustrações da vida e deixam de enxergar a luz no termo do túnel mais rápido. A impulsividade própria da idade é uma agravante”, diz a psiquiatra Lee Fu I.

E os sinais de que existe o risco de o jovem tirar a própria vida podem ser mais claros do que se imagina. “Frases porquê ‘ninguém se importa se estou vivo ou morto’, ‘queria vanescer’ ou ‘melhor seria se eu morresse’ devem ser encaradas porquê um pedido de escuta para um sentimento de angústia incontornável”, alerta a psicóloga Vera Barros.

Possíveis estímulos para o surgimento da depressão na juvenilidade

Hormônios a milénio: O turbilhão hormonal deixa os jovens mais impulsivos. Só que, muitas vezes, eles não estão preparados para tanta intensidade.

Muitas emoções: O juvenil tem dificuldade de reconhecer muito os próprios sentimentos. Gerenciá-los é mais complicado ainda.

Pressão escolar: Além do bullying, a cobrança pela escolha da curso, frustrações amorosas e insatisfação com o corpo entram em jogo.

Perdido em si: Na juventude, surge a premência de separação psíquica dos pais. O lugar deles se torna vazio e mais vulnerável.

Traumas: Perda de alguém próximo, sensação de desarrimo e grandes cobranças pessoais também abrem alas para a depressão.